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  Artigo/Entrevista retirado do “JORNAL DA LÍLIAN”   
               Edição do dia 12 de maio de 2001                 
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“NO FUNDO, AS PESSOAS GOSTAM DE SER ENGANADAS”

Sábado, 12 de maio de 2001, 02h54min

O que faz as pessoas caírem em conversas do charlatanismo, em promessas impossíveis de cura, de emagrecimento? Como fazer para evitar essas armadilhas? Nós vamos conversar com Arthur Kaufman psiquiatra especializado em Transtornos Alimentares e Coordenador do PRATO - Projeto de Atendimento ao Obeso, do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. E com Fabio Herrmann, médico psicanalista. Ele é membro da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo e professor do Programa de Pós Graduação em Psicologia Clínica da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo.

Lilian – Eu estava comentando esse anúncio de meia página num jornal de grande circulação, prometendo perda de 18 quilos sem dieta, nem medicamentos, em menos de nove semanas. Enfim, publicado impunemente. Dr. Arthur o que acontece? Vamos falar primeiro da parte da mente e da alma das pessoas. Elas tendem a se deixar acreditar por essas promessas, inclusive, de curas impossíveis?

Dr. Arthur – Certamente sim, porque as pessoas estão meio perdidas hoje em dia. Existe uma pressão social muito forte para seguir um modelo considerado certo que é ser magro. Porque ser magro e ser jovem significa ganhar muito dinheiro, ser amado, ser querido, ser requisitado. É isso que a mídia vende e é isso que a gente acaba acreditando. Então, para isso vale tudo. Valem todas as tentativas para tentar se enquadrar nesse modelo. Por outro lado a gente que vive em São Paulo vive praticamente engaiolado. Não dá para soltar os filhos por aí, tem que andar de tênis velho se não vai ser roubado, tem que dar algum dinheiro para o ladrão, mas não pode dar muito dinheiro, se não vai ser uma grande perda. Os prédios são cada vez mais jaulas e as crianças estão cada vez mais engaioladas. Não saem, não praticam esportes, não têm onde brincar, não têm onde passear e ficam em casa. E ficar em casa significa assistir à televisão, jogar videogame, jogos pelo computador, sedentarismo que leva a obesidade. Ao mesmo tempo a televisão e todos os meios de comunicação estão sempre incitando, principalmente, as crianças a comprarem guloseimas, coisas açucaradas, fast-food, enfim, tudo aquilo que é de digestão rápida e aparentemente gostosa. E as crianças pressionam os pais. Pais que freqüentemente se sentem culpados porque trabalham o dia inteiro, porque não podem dar para as crianças as condições que acham ideais. O que os pais fazem? Limpam a consciência dando aquilo que a criança quer. Então a gente tem que apelar para as mágicas para ficar de acordo com aquilo que se espera. Sair atrás do remédio da moda, do antidepressivo, do melhor remédio para emagrecer, de preferência algum natural. Se esse vinagre é de maçã, maçã é fruta, é natural, então eu não vou estar tomando um remédio daqueles pesados -- eu vou tomar comprimidos de maçã.

Lilian - Não vai tomar remédio pesado, mas vai ser roubado.

Dr. Arthur – Isso a pessoa só percebe depois. Porque primeiro tem a história de que o que é natural é erva e deve ser bom. Erva não faz mal. Esquecem que curari era uma erva usada pelos índios para matar os inimigos, por exemplo. Então, se o vinagre é de maçã, tudo bem. Nesse anúncio que você citou, o grande segredo do anúncio está no final da página, onde diz que a pessoa vai ganhar um manual de reeducação alimentar. Nesse manual, provavelmente, está escrito que a pessoa deve evitar gorduras, excesso de açúcar, fazer atividade física e tomar as cápsulas de maçã. Por isso é capaz até de a pessoa emagrecer mesmo.

OUTROS TIPOS

Lilian - Dr. Fábio, nas outras áreas a gente também vê charlatanismo. Outro dia a gente estava lembrando aqui na redação: as ciganas que lêem futuro, os jogos de tarô, esoterismo. Eu não estou chamando todo mundo de charlatão, mas a gente sabe que tem, que trabalham impunemente e ganham dinheiro. O que o senhor acha disso?

Dr. Fabio - Há uma necessidade urgente de ter algum tipo de certeza nesse mundo que perdeu quase completamente a credibilidade. O que se passa? Uma pessoa não consegue acreditar, e com boas razões, nem sequer no que vê, muito menos no que lê. O nosso cotidiano começou a se tornar incrível para nós. A gente não entende o que acontece. Toda vida está ligada a sistemas tão complicados que absolutamente qualquer coisa com que eu mexa está além do meu conhecimento. Por outro lado se perdeu a explicação geral de conduta de vida que eram as velhas religiões.

Lilian – O senhor acha que o charlatanismo entra muito no lugar da religião?

Dr. Fabio – Não é exatamente o charlatanismo. Mas a necessidade de se acreditar em alguma coisa abre as portas para o charlatanismo.

INFERIORIDADE E VINGANÇA

Lilian – Quem tende a procurar ou quem se deixa levar pelo charlatanismo não tem religião, não tem fé?

Dr. Fabio – Não necessariamente. A gente vive em um mundo onde não consegue nem sequer entender os mecanismos do próprio corpo, do nosso cotidiano, da nossa vida, que só podem ser explicados por sistemas científicos que são incompreensíveis para o homem comum. É uma espécie de vingança, eu acho, o acreditar em qualquer coisa.

Lilian – Vingança contra o quê?

Dr. Fabio – Vingança da inferioridade em que eu fico quando olho, por exemplo, os aparelhos aqui em volta e eu sei perfeitamente bem que eu não consigo entender como funciona o computador, a câmera, sequer como funciona esse prédio inteligente em que nós estamos.

Lilian – Da tecnologia, por exemplo?

Dr. Fabio – A tecnologia tornou o homem tão distante dele mesmo e de poder compreender o mistério do mundo. A ciência se tornou tão complicada que é uma espécie de vingança do homem comum. É como se dissesse – “eu sou capaz de saber mais do que os sábios”. Nem que para isso eu tenha que decretar eu mesmo naquilo que eu vou acreditar, por exemplo, em uma cartomante, numa leitura de tarô, em uma droga miraculosa. Compreende? É apenas é um fenômeno, penso eu, de impotência patológica do sujeito no nosso mundo. O mundo ficou complicado demais. O nosso mundo agora é só para especialistas.

Lilian – Antigamente já existia o charlatanismo né?

Dr. Fabio – Sim naturalmente. É uma belíssima história.

CRESCEU E MULTIPLICOU

Lilian – E o assunto cresceu?

Dr. Fabio – E multiplicou-se. Cresceu e multiplicou-se biblicamente. Cresceu do ponto de vista do negócio, da movimentação de dinheiro envolvida. E multiplicou-se nas formas. O que era o charlatanismo? Fundamentalmente ou era curar uma doença impossível de ser curada ou perfeitamente possível, mas não na época ou prever o futuro.

Lilian – Hoje em dia o que mais que tem?

Dr. Fabio – Hoje em dia há praticamente tudo. Desde de sistemas que melhoram: a saúde, a potência sexual, dão sorte em geral na vida, dão paz, tranqüilidade, energia positiva, elevam a alma. Então, eu acho que houve uma diferenciação, uma multiplicação das variedades de charlatanismo, fundamentalmente, ligados a isso o homem não entende mais o mundo em que vive.

DOIS MUNDOS

Lilian – Dr. Arthur o senhor acha que essa teoria dele de repente pode ser aplicado também ao que o senhor dizia a pressão social para ser magro, no caso da obesidade?

Dr. Arthur – Totalmente. Acho que tudo faz parte do mesmo conjunto. Enquanto ele estava falando estava me ocorrendo uma imagem. Há o mundo de cima e o de baixo. No mundo de cima estão os tecnocratas, sábios, políticos, modelos, as agências de publicidade. E no mundo de baixo estão os mortais. Os mortais de alguma forma têm que se virar. Porque o mundo de cima só se relaciona na medida que está vendendo: fé, saúde, paz e tudo isso. E o mundo de baixo tem que se virar e se vira com as coisas que tem no fundo do quintal. Sabe-se de gente que ficou muito rica vendendo remédio de fundo de quintal. Remédio para fígado, dor de cabeça, virilidade e assim por diante. Por que eles ganham tanto dinheiro com um remedinho desses? Porque as pessoas acreditam. Elas precisam acreditar em alguma coisa. Uma outra forma é a presença dos ídolos. Hoje em dia os grandes eventos religiosos acontecem freqüentemente nos estádios. Hoje em dia a religião está dirigida a grandes massas e as religiões estão competindo para ver quem atrai mais fiéis. E atrair fiéis significa mais dinheiro, mais tempo e um rebanho maior. E as pessoas estão sendo tratadas cada vez mais tratadas como rebanho. Quer dizer,1984 persiste.

COMPRAR SEMPRE

Lilian – O senhor teria algum conselho objetivo para dar para que as pessoas não caiam. Sei lá até a agência de casamento não chega a ser um tipo de charlatanismo?

Dr. Arthur - Não necessariamente. Eu acho que é precoce rotular assim. Porque obviamente tem o aspecto negócio. Se eu abro uma agência de casamento qual é a finalidade? Ganhar dinheiro. Mas de repente eu estou até beneficiando algumas pessoas que podem até encontrar a cara metade. Mas a questão geral é assim existe de tudo para deixar você feliz. No caso da alimentação você deve comprar isso para comer, porque é gostoso e logo depois você deve comprar isso para comer para eliminar aquilo que você comeu anteriormente. Ou vai fazer você vomitar ou vai fazer de alguma forma perder aquilo que você comeu antes. O ideal é que você compre os dois. E a coisa pode ser usada de uma forma charlatanista, se é que existe essa palavra. Depende muito da intenção de quem faz e da credibilidade de quem compra. Qualquer médico em transtorno alimentar pode ser até charlatão sem querer. No caso da obesidade que é uma doença causada por vários fatores. Eu trabalho com psicoterapia. Se alguém vem no meu consultório e eu digo vamos fazer a psicoterapia e você vai emagrecer. Provavelmente eu vou estar sendo charlatão porque uma pessoa só com psicoterapia dificilmente emagrece. Ela tem que fazer uma atividade física, uma dieta e ter outros acompanhamentos. Eu não capaz de sozinho tratar. Se eu disser que sou, posso ter PHD em Londres, mas eu vou estar sendo um charlatão.

MANUAL DO USUÁRIO

Lilian – Dr. Fabio o que o senhor estava concordando?

Dr. Fabio – Em essência que aconteceu alguma coisa no nosso tempo que fez com que o nosso corpo mesmo mudasse de estatuto, mudasse de condição para nós. Em vez de ser um corpo que sou eu começa a se transformar em uma coisa, acho que é a idéia essencial do que ele está falando, sobre a qual eu tenho que prestar certos serviços e colocar certos aditivos. Não é a toa que há cem anos o livro mais lido era a Bíblia, pelo menos é o que se diz, hoje certamente é o manual do usuário de qualquer produto. O que falta é o homem vir com o manual do usuário junto com a sua produção original. Uma investigação feita há alguns anos e por isso eu estava concordando com ele, ficou mais famoso pelo nome do que pelo conteúdo se chama Creme e Castigo. É que o corpo humano no dia de hoje é encarado com uma espécie de máquina ou de utensílio ao qual eu estou ligado a uma ética de serviço. Eu tenho que fazer alguma coisa para que fazer alguma coisa para que ele fique com sua aparência adequada, para que dure o máximo possível e a assim por diante. É claro que quando isso se junta com o fato de que o nosso cotidiano é ao mesmo tempo extremamente surpreendente incrível e muito chato. Vocês tiveram na semana passada uma discussão sobre o problema da comissão de ética no Senado. Eu acabei assistindo um pedaço daquilo (acareação no Senado). Não era nem decepcionante. Era nada. Na verdade teve aquele aspecto cômico e terrível, ao mesmo tempo, o coitado do relator ter mordido um pequi, depois daquela acareação. Ele estava com uma tarefa espinhuda e acabou ficando com a boca cheia de espinhos. Veja bem ter retirado os espinhos da boca dele foi a única coisa aguda que saiu da boca de um senador.

NOVIDADES

Lilian – Mas o que isso tem a ver com o charlatanismo?

Dr. Fabio – Há uma fome de qualquer coisa que possa interessar. Há uma coisa especifica que é quero entender o mundo. Não quero me sentir tão inferior. Não quero me sentir tanto no andar de baixo, como diz o Arthur. E há uma coisa mais geral que é divirtam-me, por favor, nem que seja com uma nova moda. Não usem o mesmo produto por dois anos. Ou mudem o nome. Inventem um nome. Eu ainda me lembro dos pobres ipês roxos que ficaram carecas porque se arrancavam a casca para fazer chá, que era bom para tudo inclusive para a cura do câncer. Era o chá de ipê roxo. A cada tantos anos surge uma novidade para divertir a gente. Aquilo que nos poderia divertir como política, por exemplo, diverte tão pouco.

Lilian – Como é que as pessoas fazem para não cair nessa armadilha. Elas se deixam encurralar é verdade. Como fazer? Nem todo mundo sabe identificar o charlatanismo né dr. Arthur?

Dr. Arthur – Nem todo mundo. Mas as pessoas de certa forma pedem. Hoje eu falei para uma cliente nova “você pensa que sou marceneiro?” Ela de alguma forma queria me entregar o corpo. Não é o corpo que eu sou é o corpo que eu tenho. Ela queria me entregar o corpo para daqui a duas semanas eu devolver o corpo bonito, magro, sem estrias, sem celulite etc. Eu fiquei tão espantado que eu disse “pensa que sou marceneiro?”. A pessoa pede. Ela até mexe com a sua vaidade. Alguém pode dizer deixa eu provar para ela que eu sou capaz ela vai ver.

Lilian – Nesse caso ela não quer ser ativa. Ela quer ser passiva será que é isso?

Dr. Arthur – Ela quer ser passiva. Em vez dela comprar um remédio qualquer na farmácia ou vinagre de maçã. Ela acha que não vai ser enganada se procurar um doutor e ele receitar um outro tipo de vinagre de maçã. Entendeu? E aí ela vai ficar legal.

Lilian – Ela não quer ter trabalho?

Dr. Arthur – Ela não quer ter trabalho. Eu fui em um médico ele me atendeu. Eu não fui em qualquer curandeiro. E o médico me deu esse remédio e eu vou ficar bem.

DESESPERO

Lilian – Será que no caso das religiões, por exemplo, não é um desespero de causa? As pessoas, às vezes, precisam de um remédio. O parente está com câncer, desenganado e vai morrer. Ela vai em qualquer charlatão para ver se ele ajuda.

Dr. Fabio – Isso sim. Eu acredito que sim. Desde que o mundo é mundo existe. No desespero a gente aposta na coisa mais absurda. Até aí simples. Mas você perguntava como reconhecer o charlatão? É impossível eu concordo inteiramente com Arthur. Não há como reconhecer um charlatão, principalmente, se a gente está interessado em encontrar um. Mas o que se pode ver é um pouco a partir disso. Se alguém quiser ter uma idéia de que está entrando numa fria basta pôr um pouco de atenção em si mesmo e vê o tipo de expectativa e sentimento que está alimentando com relação a essa cura mágica, no caso de uma doença grave, ou de um milagre para emagrecer como dizia o Arthur. Não dá para olhar para fora e saber quem é charlatão necessariamente, mas é possível olhar para dentro e ver que quando a gente está querendo encontrar alguém tão perfeito e maravilhoso que possa mostrar para os amigos, e muitas vezes o interesse é mais de poder contar para os outros que conseguiu do que conseguir. Então você é o pato perfeito. O pato diplomado, digamos assim.

Lilian – Dr. Arthur como a moda da obesidade parece que está direcionando os casos mais graves dessa enganação para esse ramo, o que o senhor tem visto, o que o senhor pode ajudar aos nossos internautas além é claro da reeducação alimentar?

Dr. Arthur – Uma das coisas que a gente vê é que uma conseqüência, um efeito colateral da obesidade são as mulheres principalmente irem para a anorexia ou bulimia. Então o negócio é fechar a boca e elas levam no literal não no simbólico. Para elas fechar a boca é não comer nada. Evidentemente acabam caindo numa doença e muitas delas acabam morrendo de fome na frente de um prato de comida. Que é o caso daquela menina Karen Carpta.

VOMITIVOS E LAXANTES

Lilian – Isso é uma outra conversa, mas é também até genético eu lembrei também do caso das gêmeas do Canadá. Pode ser congênito?

Dr. Arthur – Pode ser congênito, mas freqüentemente a maior parte das vezes não é. Ou então apelar para a bulimia que é usar laxantes, vomitivos para ser magro. Uma pessoa que eu vi ela tinha acessos alimentares então ela se pesava e ia comendo então o peso imediatamente subia. Daí ela ia vomitando, vomitando e pesava. Fazia uma série de oito a dez vomitadas até voltar ao peso antes de começar a comer.

Lilian – Ela comia em cima da balança?

Dr. Arthur – Praticamente. Ela comia e vomitava ao lado da balança. Você vê a urgência.

Lilian – O que acontece com os tais dos neurotransmissores de uma pessoa dessa? Ela sente necessidade de comer para sentir algum tipo de paz?

Dr. Arthur – Exatamente. É compulsivo. Ela nem sabe o que está fazendo. Ela tem um ataque e só não come a geladeira porque é dura e fria. O resto vai tudo.

CREPÚSCULO

Lilian – O senhor conhece casos assim?

Dr. Arthur – Vários. É muito mais comum do que todo mundo pensa. Não é uma coisa rara. A gente encontra isso todos os dias. É cada vez mais comum. Porque é regime o dia inteiro. E é muito interessante porque o regime, em geral, dura até as cinco, seis horas da tarde que por coincidência é a hora do crepúsculo, que é a hora que não nem dia e nem noite, o farol do carro funciona e não funciona parece que você enxerga e não enxerga. Parece que nessas horas os fantasmas saem. A hora que os fantasmas saem o regime vai para as cucuias e elas comem tudo que vem pela frente.

Lilian – E sempre elas né as mulheres têm mais tendência?

Dr. Arthur – Está começando a ir para os homens também porque os homens estão também sendo muito cobrados em função do corpo que precisa ter.

Lilian – É assim uma espécie de jejum até o crepúsculo e liberdade total depois disso?

Dr. Arthur – Não é liberdade é que os fantasmas saem. Eu não disse liberdade. Porque é um remorso danado. Elas comem e morrem de sentimento de culpa. Não é liberdade. Não é um prazer. É uma angústia tremenda que vai ser sanada nessa hora.

Lilian – Essa angústia vai ser resolvida com o quê com a serotonina? O quê que acontece?

Dr. Arthur – Vai ser resolvida com a comida que vai mexer com a serotonina enfim dá uma baixada no drama. Só que daqui a pouco vem outro drama que é a culpa.

Lilian – E aí é outro neurotransmissor que faz a culpa?

Dr. Arthur – É tudo a mesma coisa. Eu não sei exatamente qual é o neurotransmissor, mas é a mesma coisa. Daí vem a culpa. Aí a culpa aperta, aperta a pessoa fica muito angustiada a pessoa vai e come de novo. E aí o circulo se perpetua. Então, você compra livros de auto-ajuda, cápsulas de vinagre de maçã, você compra o que eles quiserem vender. Você coloca um copo d’água em frente ao seu computador porque está tendo pelo rádio uma missa e aí o locutor abençoa o copo e os seus desejos vão acontecer. Tudo isso está a venda basta querer.

SOU OTÁRIO

Lilian – É caso de polícia?

Dr. Arthur – Eu acho.

Lilian – Mais acho que a rigor mesmo não há Procon que possa ajudar essas pessoas. Enfim alguém que comprar esse vinagre de maçã vai ser ludibriado.

Dr. Arthur – Se não matar ninguém não tem problema.

Lilian – Mas não cumpriu a promessa foi propaganda enganosa?

Dr. Fabio – Sem dúvida não é. Vai ao Procon dizer o quê? Sou otário.

Lilian – Estou perguntando isso porque não sei se adianta educar a população, que é de certa forma, o que nós estamos tentando fazer aqui. Tentar alertar a população. Tentar treinar as pessoas para não caírem. Ou elas querem cair?

Dr. Fabio – O problema é justamente esse. Quando a gente fala em alertar as pessoas ou porque elas fazem isso. A palavra chave, que é onde está o problema é – as pessoas. Se nós vivêssemos ainda num mundo em que as pessoas têm suas opiniões, como ocorrem em uma pequena cidade, e agem de acordo com aquilo, então é possível educar as pessoas de um lugarejo, de uma pequena cidade. Agora, com 10 milhões de habitantes como tem São Paulo não existe pessoa a que se possa chegar e sim sistemas de comunicação de massa nós estamos falando para um deles. São mecanismos que não têm o funcionamento do psiquismo humano individual. O mesmo mecanismo que leva a produção louca ambição de um corpo perfeito, esbelto e tão magro, que fica ridículo, também é o que permite a gente se dirigir ao grupo e dizer não deveria ser assim. São grandes forças veiculadas por sistemas que não têm a lógica do pensamento individual e é essa é a parte do problema. O ponto fraco da frase é justamente esse as pessoas. Fui procurado hoje por uma colega que está desenvolvendo uma tese sobre anorexia e está estudando alguns casos. Ela me contou que uma garota está deixando de comer, está entrando em um quadro de aneroxia, possivelmente, muito grave, e a mãe faz com que ela tente se alimentar. Quando a ela faz uma refeição, ela come e imediatamente faz centenas de abdominais na mesma sala, onde comeu, independente de ter visitas ou não em casa. Ela combatia o peso no ato é exatamente o que o Arthur disse. Essa espécie de máquina de produção é individual. É um indivíduo que está fazendo isso. Mas não te parece semelhante a uma máquina. É o comportamento de uma máquina. É uma compulsão que deixa de ter a mediação do pensamento. Esses mecanismos de exigência de magreza, de perfeição física tem um caráter de desumanização que eu acho que nós não podemos ignorar.

EDUCAÇÃO

Dr. Arthur – Eu queria completar porque eu acho que tudo isso mais do que um problema de saúde e de polícia. O que eu defendo é que o trabalho seja feito a médio e a longo prazo com as crianças. Eu acho que tem que ser feito nas escolas. Da mesma forma que existem aulas de educação sexual, de educação religiosa eu acho que tem que ter outras aulas como educação alimentar, para a cidadania até para as crianças não caírem nesses contos e impedirem que os pais caiam. No caso específico da alimentação eu imagino assim se as crianças aprenderem a comer na escola elas vão chegar em casa e vão dizer – mãe eu aprendi na escola que só pode comer batata frita no máximo uma vez por semana, porque não é bom para a saúde.

Lilian – As escolas dizem que não pode empurrar isso para escola porque a família não pode fugir a essa responsabilidade. Geralmente elas falam isso.

Dr. Arthur – Mas as famílias não sabem fazer isso. E o pior é que se você for olhar as cantinas das escolas só tem junk food. Então, precisa ser um esforço conjunto. A escola precisa tomar conta da cantina que ocupa um espaço geográfico lá dentro. Então se você educa as crianças elas educam os pais. Eu acho, hoje em dia, isso mais fácil do que o contrário.

FICAR SEM COMER

Lilian – Dr. Arthur todo mundo viu na mídia essa história que encontrou um bom espaço aliás, da pessoa que disse simplesmente que parou de comer para o resto da vida. Isso não pode induzir quem lê, quem vê não pode acreditar e tentar colocar em prática e ficar doente. Essas pessoas não deveriam ser punidas, ser censuradas sei lá. Pelo menos ter um contraponto a elas. Alguém falando. Ou não. Ou dá para parar de comer e ficar tudo maravilhoso?

Dr. Arthur – Certamente que vai induzir. Embora essa pessoa da entrevista tenha sido clara – não é para qualquer um. Eu não estou resolvendo o problema da fome no mundo. Não sei se é verdade ou não é o que ela pensa ela diz que a pessoa precisa ter um determinado estado de espírito que faça com que ela possa se alimentar de energia solar.

Lilian – Gente não é pior ainda?

Dr. Arthur – Claro. O que vai ter de gente crédula olhando para o sol, queimando a retina, ficando sem estômago é muito capaz.

Lilian – Mas como é que pode. Sei lá na sua opinião em veículos de comunicação de massa não deveria ter um contraponto, alguém sensato, ainda que achasse tudo engraçado do lado, dizendo gente isso mata. Por que isso mata? Tecnicamente não é possível? Isso mata.

Dr. Arthur – Isso é uma anorexia ao máximo, não é uma aneroxia que a pessoa come algumas ervilhas por dia. E claro mata.

Lilian – E deve tomar só líquido?

Dr. Arthur – É parece que é só um suquinho. É óbvio que deveria chamar um especialista, alguém que entenda para contrapor. E dizer - olha se você quer está assistindo for fazer isso é provável que aconteça tais e tais coisas. Não pensa que você vai ser entrevistado na televisão e ter também os seus segundos de fama.

Lilian – Porque vai estar no caixão?

Dr. Arthur – É.

Lilian – E só líquido é viável, também?

Dr. Arthur – Não. Não há líquido que tenha todos os nutrientes necessários.

Lilian – Quer dizer não tem jeito o charlatanismo vai continuar e o único jeito é educação a partir do berço. O dr. Fabio concorda?

Dr. Arthur – Eu acho que ele tem toda razão. A única coisa a acrescentar a isso é que esse é um tema de pesquisa. Não só a questão da obesidade, não só o charlatanismo ligado a questão médica, a medicina, mas toda essa rede ideológica que acaba criando essa situação que nós estamos discutindo. É um tema importante para: pesquisa, tese, estudos de política e para a compreensão da cultura do nosso tempo. Porque é claro que uma tese ou um estudo teórico sobre o tema não resolve o assunto, mas ainda é a ferramenta forte para qualquer coisa que ultrapasse o nível.

Lilian – É um caso de ciência social?

Dr. Fabio – É um caso de ciência social, da psicologia.

CARTOMANTE E ANTIDEPRESSIVO

Lilian – Na sua experiência diária o senhor não vê acontecer muito isso nas classes mais esclarecidas. Porque essas coisas são caras não são? O sujeito para esse anúncio gastou meia página de jornal do primeiro caderno. Será que as mulheres ricas recorrem também em desespero de causa ou por modismos a essas coisas? Quer dizer será que não é gente que não teve educação, que estudou?

Dr. Arthur – Muita gente de posses, gente educada compra o porangaba achando que vai emagrecer.

Lilian – O que é o porangaba mesmo?

Dr. Arthur – É uma outra erva que diz que promove um emagrecimento rápido, indolor etc. Muita gente compra. Eu estava uma vez em uma praia, digamos muito bem freqüentada, então havia um grupo de mulheres, dessas que vão para a praia de helicóptero, gente de peso, e uma estava dizendo para outra – todos nós tomamos, e deu o nome do antidepressivo, que era da moda, e tem uma nova cartomante no pedaço e ela cuida da gente.

Lilian – O senhor ouviu isso?

Dr. Arthur – Ouvi na praia. Tem muito antidepressivo e eu conheci esse na praia. Era do tipo que precisa de receita médica para comprar.

Lilian – Faz tempo?

Dr. Arthur – Foi no ano passado.

Lilian – Quer o senhor está certo em falar em educação, mas acho que não vai ser suficiente. Vai só ajudar. É um problema da humanidade que não tem sem solução.

Dr. Arthur – É certamente não.

Lilian - A gente vê muito isso na América do Norte.

Dr. Arthur – Tem muito a ver com a vaidade, com o desejo de brilhar, com o desejo de ser esperto descobri a grande sacada. Agora eu vou conseguir ser como todo mundo quer e não consegue.

Lilian – Dr. Fabio o senhor tem alguma coisa a acrescentar?

Dr. Fabio – É um problema a ser estudado dentro de um contexto muito mais complexo que é o do mundo que nós estamos fabricando nesse novo século. Um problema a ser estudado de um novo contexto que tem que ser decodificado por uma porção de meios e instrumentos teóricos. As ações práticas até as policiais, infelizmente, são bastante precárias.

Lilian – Muito obrigada aos senhores. Na semana que vem tem mais.

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